Se o cinema atraiu e até inspirou vários dos modernistas brasileiros, apenas um, Menotti del Picchia, esteve ligado a ele. Nesta sexta-feira (27), a Cinemateca Brasileira lhe faz uma homenagem em que o principal é a apresentação, com a trilha sonora remontada, do filme “Alvorada de Glória”, de 1931, seguida de debate. Esse foi um dos argumentos que Menotti escreveu para cinema.
Se esteve próximo de escritores como Oswald e Mário de Andrade no início do movimento e se chegou a ser frequentador assíduo da famosa “garçonnière” de Oswald no período pré-modernista, depois participou do Grupo dos Cinco —Tarsila, Anita Malfatti, Mário, Oswald e ele—, mas com o tempo Menotti se afastou desse núcleo, ele próprio não isento de conflitos.
Ao “Manifesto da Poesia Pau Brasil”, Menotti retrucaria com a ideia de um Brasil-brasileiro, puro, livre de influências externas —o do grupo Anta e do movimento verde-amarelo. Embora abrisse uma brecha para os tupis, isto é, os indígenas, esse grupo acreditava em aceitar “todas as instituições conservadoras, pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil”. Ninguém se espantará de saber que o líder do núcleo era Plínio Salgado, logo em seguida líder do movimento integralista, versão nativa do fascismo.
O elo do poeta com a política está claro em “Alvorada de Glória”, que teve a direção de Luiz de Barros e Victor del Picchia, sobrinho de Menotti. O argumento acompanha a jornada de Nilo —papel de Nilo Fortes—, jovem que adere à revolta de 1924, liderada pelo general Isidoro Dias Lopes.
Com a derrota, foge, levando uma medalha de Nossa Senhora que lhe foi dada pela noiva, Lygia —Ligia Sarmento. O grupo se uniria em seguida à Coluna Prestes e rumaria ao exílio. Quando outra revolta começa —a que levaria à Revolução de 1930—, Nilo volta também à frente de batalha.
Embora liderada por Dias Lopes, general reformado, a revolta de 1924 faz parte do movimento tenentista, que já havia dado na revolta de 1922, no Rio de Janeiro, e que levaria os tenentes ao poder em 1930.
O filme de 1931 foi feito, portanto, num momento ainda apto a captar a subida do movimento tenentista ao poder e antes de os paulistas se desentenderem de vez com o novo governo. No mais, acentua Carlos Augusto Calil, curador da sessão, ajudava a limpar a barra de Menotti, que tinha ligações fortes com o antigo regime, junto aos tenentes.
Esta não foi a primeira incursão dele e da família Del Picchia ao cinema. Menotti, era sócio da Independência Films com o sobrinho Victor e o irmão, José del Picchia, cinegrafista.
Mas foi a Victor Filme que produziu “Alvorada de Glória”, musicado pelo sistema Sincrocinex, introduzido por Gustavo Zieglitz via agência Pathé. O Sincrocinex era, a rigor, uma gambiarra criada a partir do Vitaphone, de sincronização por discos, que havia introduzido o som no cinema com “O Cantor de Jazz”, em 1927.
A diferença é que os discos brasileiros eram de 78 rotações, o que obrigava o operador a trocar os discos da trilha sonora com grande frequência. Isso não impediu, diga-se, o sucesso de “Acabaram-se os Otários“, de 1929, primeiro filme sonoro brasileiro.
Foi outro argumento escrito por Menotti del Picchia, que versa sobre a aventura de dois caipiras na cidade grande. “Acabaram-se os Otários” é considerado um filme perdido, embora, a partir dos dois minutos filmados que restaram, de fotos, argumento e da trilha sonora reencontrada, tenha sido “reconstituído” no departamento de cinema da Universidade Federal Fluminense, em 2019. Conforme as pesquisas avançaram, a mesma equipe atualizou o trabalho no ano passado. Está disponível no Youtube.
Em “Alvorada”, a reconstrução é da trilha sonora. Os discos foram encontrados num trabalho que envolveu o Instituto Moreira Salles e a Cinemateca, mas o projeto envolveu também indicações do próprio Menotti, que morreu em 1988, e leitura labial para a sincronização.
Tanto em “Alvorada de Glória” como em “Acabaram-se os Otários”, a presença de Menotti é marcante. Neste último, a reconstituição deixa ver a celebração do caipirismo nativo —com Genésio Arruda surgindo como primeiro grande comediante do gênero, e, claro, precursor de Mazzaropi, que surgiria nos tempos da Vera Cruz. Mas não se pode esquecer a presença de um italianado Tom Bill, parceiro de Genésio no filme.
A não esquecer, também, que Menotti nasceu em Itapira, no interior paulista. Esse lado biográfico, aliás, é destaque do curta “Menotti”, de Elie Politi, de 1975, que será exibido na mesma sessão, ao lado do centenário “Piracicaba”, um panorama da cidade paulistana em 1922, produção da Independência Films.
Em “Alvorada de Glória”, está presente a paixão política do escritor, que participou do PRP, o Partido Republicano Paulista, de oposição à “república do café com leite”. Esteve ainda na Revolução de 1932 e, mais tarde, dirigiu, em São Paulo, o Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão central da censura durante a ditadura Vargas. Foi ainda, por vários anos, deputado federal —tudo isso sem deixar de lado a sua obra literária, hoje, na verdade, um tanto esquecida.
Por fim, e como se trata de sessão dedicada à Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, vale lembrar que direção, roteiro, montagem e direção de arte do filme foram de Luiz de Barros —Victor del Picchia foi codiretor e Menotti supervisionou a produção.
Também conhecido como Lulu de Barros, ele é um dos mais controvertidos diretores da era dos pioneiros do cinema brasileiro. Sua maior marca era a capacidade de enfrentar os problemas que inevitavelmente surgiam na produção, filmando em condições precárias e levando os trabalhos até o final e dentro do cronograma. Em suas memórias, ele lembra uma ocasião em que, precisando de uma bailarina para compor uma cena, e tendo a contratada desistido do trabalho, ele depilou as próprias pernas e as colocou em cena.
Se a qualidade de seu trabalho é altamente variável —foi creditado em nada menos do que 105 longas-metragens, a maior parte deles perdidos—, Lulu emerge hoje como artesão-símbolo de um cinema que sobreviveu à precariedade de meios de produção e distribuição ao longo de mais de um século.

