11 abril, 2026
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É Tudo Verdade: Conheça a diretora Vivian Ostrovsky – 11/04/2026 – Ilustrada

Mesmo com filmes no É Tudo Verdade, Vivian Ostrovsky recusa o título de cineasta. Aos 80, experimentada em diversos formatos do cinema experimental, a artista se diz uma mera observadora. E afirma que pessoas desconhecidas são os protagonistas ideais do seu “teatro do cotidiano”.

“Hoje, muitos viram os celulares para si e se filmam. Sigo virando a câmera para os outros. Me divirto com pessoas tirando selfies e posando por horas, em busca do ângulo perfeito”, diz a realizadora, tema de uma retrospectiva do festival de documentários.

Entre banhistas cariocas, animais do interior francês e soldados da União Soviética, as memórias que habitam seu trabalho embaralham vivências e países. Filha de imigrantes judeus, nascida em Nova York e criada no Rio de Janeiro, ela afirma que o mundo atual é diferente daquele que costumava filmar. Regiões como a Europa e a América Latina parecem mais próximas, e conflitos como os do Oriente Médio ecoam por todos os cantos.

Desde os anos 1980, quando lançou seu curta de estreia —um ensaio que destaca vestidos e gestos num desfile parisiense—, Ostrovsky prioriza a intuição e explica que as ideias surgem conforme conecta as imagens.

Da aceleração de pessoas que andam por Copacabana à inscrição de frases de Clarice Lispector em ambientes diversos, a artista repensa registros rotineiros e discussões narrativas. Isso porque ações do corpo, comportamentos coletivos e intervenções visuais em fotos, pinturas e outros objetos sempre lhe interessaram mais do que histórias com começo, meio e fim.

A pesquisadora Fernanda Pessoa, que exibe no evento o seu “V.O. por F.P.” —curta sobre a diretora que ela desenvolveu desde o doutorado—, diz que o repertório de Ostrovsky é inclassificável. Não por acaso, a diretora é avessa a roteiros e atores.

“Não dirijo ou parto de bases escritas, pois a distância entre o que se planeja e o que acontece é grande. Os celulares facilitam esse tipo de filmagem, e agora é possível filmar de todos os jeitos.” Apesar da vigilância de redes digitais, ela defende que as gravações ficaram mais genuínas. Como aparelhos móveis são multitarefas, nem todos sentem que estão sendo filmados.

Ao longo da carreira, até por acidente, a realizadora construiu um vasto acervo de panoramas culturais. Na programação do festival, com 15 obras dela, filmes dos anos 1990 como “Domínio Público” e “Movie (V.O.)” costuram continentes e grupos sociais ao juntar boxeadores do Brooklyn, dançarinos catalães, canções indianas e acordes de samba.

Também em exibição, “CORrespondências e REcorDAÇÕES” —feito para uma mostra no MAM do Rio— investiga as artes plásticas via correspondências com a pintora Ione Saldanha; “The Title Was Shot” ironiza arquétipos ao picotar produções com caubóis e indígenas. Já “Nikita Nino” revê as suas idas frequentes a Moscou —em 1960, o pai de Ostrovsky descobriu que os irmãos ainda estavam vivos e morando por lá.

São títulos que retratam transformações e que, diz Pessoa, “se recusam a se estabilizar.”

Afinal, Ostrovsky não se limitou às próprias câmeras para observar o mundo. Na década de 1970, junto da curadora Esta Marshall, ela criou festivais de cinema feminino, que centralizaram importantes discussões sobre gênero e sexualidade.

Os estudos em Paris —onde aprendeu com expoentes da nouvelle vague como Eric Rohmer— também a aproximaram de Martá Mészáros, Agnès Varda e Chantal Akerman, algumas das cineastas que juntou numa conferência internacional, em 1975, para debater estigmas do audiovisual. A artista, aliás, costura registros dessas cineastas em outro curta em cartaz.

Mais tarde, as iniciativas resultaram na organização Ciné-Femmes International, dedicada a exibir filmes feitos por mulheres. A bordo de um carro antigo, com rolos de película, fitas VHS e outras mídias, ela e Marshall bateram à porta de festivais e cineclubes pelo mundo e divulgaram longas de Akerman, Varda e de autoras como Maya Deren, Sarah Maldoror e Marguerite Duras.

Fossem exercícios lúdicos de libertação corporal, fossem longas sobre grupos marginalizados, o único critério de distribuição era o feminismo.

“Sinto que existia uma liberdade, na época, que talvez tenha se perdido”, diz Ostrovsky, que integra o júri desse É Tudo Verdade. “Hoje, há um tipo de consciência de que filmes não podem chocar certas pessoas. Seguimos com um passo para frente, outro para trás.”

Atualmente, a artista concilia produções e a curadoria de mostras internacionais, e tem o Festival de Cinema de Jerusalém como herança do pai, grande financiador do Jerusalem Film Center. Desde 1974, a instituição organiza o evento israelense e promove pautas progressistas à luz das tensões entre o governo e a população palestina.

Ostrovsky cita “Collapse“, de Anat Even, entre documentários recentes que espelham o mundo com visões pessoais. O título em questão condena a violência de Binyamin Netanyahu e da organização terrorista Hamas.

“Comecei a fazer filmes por medo de perder minhas memórias”, diz Ostrovsky. “Sempre tentei misturar todas as minhas paixões —cinema, arte, música, fotografia, poesia. Não gosto de nada que seja padrão.”

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