9 maio, 2026
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Doutrina Monroe de Trump para 2026 redefine soberania na América Latina

A nova Estratégia Nacional de Contraterrorismo para 2026, divulgada pela Casa Branca na última semana, marca uma inflexão profunda na política de segurança norte-americana sob o segundo mandato de Donald Trump.

O documento reposiciona o Hemisfério Ocidental como prioridade absoluta da segurança nacional dos EUA e resgata, em nova versão, os princípios da histórica Doutrina Monroe.


Corolário Roosevelt e Doutrina Monroe

  • O Corolário Roosevelt, formulado em 1904 como extensão da Doutrina Monroe, transformou a política hemisférica dos Estados Unidos ao legitimar intervenções diretas na América Latina.
  • Se a Doutrina Monroe, de 1823, buscava barrar a presença europeia no continente, o corolário deslocou o eixo para a ação norte-americana.
  • Washington passou a se apresentar como “polícia internacional”, autorizando-se a intervir militarmente para garantir estabilidade.

Com isso, a América Latina volta ao centro da política externa dos Estados Unidos como território estratégico de disputa, contenção e demonstração de força militar.

Na prática, a estratégia amplia o conceito de terrorismo, transforma cartéis e facções transnacionais em ameaças equivalentes a grupos jihadistas e abre espaço para ações militares unilaterais em países latino-americanos.

O texto é explícito ao afirmar que os Estados Unidos atuarão “com governos locais quando estiverem dispostos e aptos a trabalhar conosco”. Caso contrário, Washington poderá agir sozinho “para proteger os cidadãos americanos”.

A nova diretriz representa uma ruptura simbólica com o modelo predominante desde os ataques de 11 de setembro de 2001. Se antes o foco do contraterrorismo estava concentrado no Oriente Médio e em grupos como Al-Qaeda e ISIS, agora o principal eixo de ameaça passa a ser a América Latina.

No documento, Trump classifica o narcotráfico como “ameaça existencial” e afirma que mais americanos morreram por drogas ligadas aos cartéis durante o governo de Joe Biden do que o total de militares norte-americanos mortos em combate desde 1945.

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Lula e Trump em encontro na Casa Branca
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Lula e Trump em encontro na Casa Branca

Ricardo Stuckert/Presidência da República

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Trump e presidente do México conversam sobre fronteira e narcotráfico
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Trump e presidente do México conversam sobre fronteira e narcotráfico

Anna Moneymaker/Getty Images – Reprodução/Redes Sociais

Gustavo Petro, Donald Trump e Nicolás Maduro
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Gustavo Petro, Donald Trump e Nicolás Maduro

Arte Metrópoles/Gabriel Lucas

Gustavo Petro e o presidente Donald Trump durante encontro
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Gustavo Petro e o presidente Donald Trump durante encontro

Reprodução/ Instagram/ infopresidencia


“Corolário Trump”


Cartéis como terroristas

O centro da estratégia é a designação formal de cartéis e gangues transnacionais como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO).

A medida muda radicalmente o tratamento jurídico e militar dado ao narcotráfico. Com ela, os EUA passam a poder utilizar recursos de inteligência, operações especiais, sanções financeiras e capacidades militares tradicionalmente reservadas ao combate ao terrorismo internacional.

Além disso, o documento classifica o fentanil ilícito e seus precursores químicos como “Armas de Destruição em Massa”, elevando o combate à droga ao mais alto nível da segurança nacional norte-americana.

O texto também associa diretamente organizações criminosas latino-americanas a governos considerados hostis por Washington, como Venezuela, Cuba e Irã.

Maduro, Colômbia e Cuba

A retórica da nova estratégia já vem sendo acompanhada por ações concretas.

Em janeiro de 2025, os Estados Unidos realizaram uma operação militar em Caracas que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores. Ambos foram levados a Nova York e indiciados por crimes ligados ao tráfico internacional de drogas.

No documento, a ação aparece como exemplo da chamada “Operação Resolução Absoluta”, descrita pela Casa Branca como prova de que o “Corolário Trump” já está em prática.

A ofensiva também atingiu a Colômbia. Ao longo de 2025, Trump acusou o presidente Gustavo Petro de “liderar o tráfico de drogas”, suspendeu subsídios e autorizou ataques contra uma embarcação colombiana supostamente ligada ao ELN.

Após meses de tensão, porém, os dois líderes se reuniram na Casa Branca em gesto de reaproximação diplomática.

Já Cuba voltou a entrar no radar da Casa Branca após novas sanções econômicas e ameaças de endurecimento militar. Trump afirmou recentemente que a ilha vive seus “últimos momentos”, embora tenha sinalizado abertura para negociação.

América Latina como “ameaça”

Ao Metrópoles, a doutora em estudos estratégicos da defesa e da segurança Priscilla Mendes avaliou que a estratégia promove uma fusão inédita entre contraterrorismo, guerra às drogas, migração e crime organizado.

“O conceito de ameaças hemisféricas aparece como eixo estruturante da estratégia. A América Latina deixa de ocupar posição secundária e passa a ser concebida como espaço prioritário de segurança estratégica dos Estados Unidos”, explica.

Segundo ela, o documento amplia o conceito de terrorismo e legitima mecanismos de exceção antes utilizados apenas na guerra ao terror.

“Isso significa uma militarização crescente do combate ao narcotráfico e das políticas de fronteira”, afirma.

Impacto no Brasil

Embora o Brasil não apareça formalmente na estratégia, o país entrou no radar da discussão após o governo Trump passar a avaliar a possibilidade de classificar facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas.

O tema era considerado um dos pontos sensíveis da reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, realizada nesta quinta-feira (7/5), na Casa Branca.

Após o encontro, Lula afirmou que o assunto não foi debatido diretamente.

O governo brasileiro resiste à classificação das facções como terroristas por entender que a medida pode abrir margem para interferências externas e ampliar pressões internacionais sobre a segurança pública brasileira.

Ainda assim, Brasil e Estados Unidos discutiram mecanismos de cooperação contra o crime organizado transnacional, incluindo combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico internacional de armas.

Para a especialista, a preocupação brasileira vai além do aspecto jurídico.

A eventual inclusão de facções brasileiras na arquitetura antiterrorismo dos EUA poderia ampliar pressões por cooperação militar, inteligência compartilhada e monitoramento mais intenso de regiões de fronteira — especialmente na Amazônia.

“No caso brasileiro, isso pode produzir maior pressão internacional sobre áreas consideradas sensíveis, como a Amazônia e as regiões de fronteira, ampliando debates sobre soberania, presença militar e alinhamento estratégico”, alerta.

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