Em setembro de 1982, a revista Playboy publicou uma reportagem sobre a turbulenta tentativa de Geraldo Vandré de retomar sua carreira musical após a censura na ditadura e o exílio. A ilustração foi encomendada a Elifas Andreato –morto em 2022, e que completaria 80 anos agora–, àquela altura já um dos artistas gráficos mais célebres do país.
O trabalho trazia uma impressão digital no lugar de um rosto e tinha as marcas distintivas do autor, mas acabaria não ilustrando o artigo sobre Vandré –de última hora, foi substituído por outro do mesmo Elifas. Exibindo uma pequena foto da imagem original, o texto de apresentação daquela edição da revista explicava o ocorrido.
“Dois dias depois de receber esta ilustração, o editor de arte Carlos Grassetti foi surpreendido por um novo e fortíssimo trabalho, que Elifas enviou com o seguinte bilhete: ‘Carlos, eu gostaria muito que este trabalho fosse publicado! Ele me emociona mais. Acho o Vandré a ferida de toda uma geração, que não cicatriza nunca –e de certa forma todos nós temos um pouco a ver com esse corte. Por tudo isso, eu espero que vocês publiquem isso. Um abraço, Elifas’. Nós publicamos, Elifas, também emocionados.”
O “novo e fortíssimo trabalho”, que terminou publicado, mostrava uma cicatriz mal coberta por um band-aid, dialogando com o título da reportagem, “Vandré, símbolo de uma geração ferida”. Pode ser conferido mais abaixo, assim como a ilustração original, cujo destino guarda uma história ainda mais mirabolante do que a do seu começo.
Em 2021, um ano antes de morrer, Elifas encaminhou à sua filha Laura uma mensagem que recebera num domingo por WhatsApp. Uma mulher dizia que havia comprado numa feira uma ilustração com a assinatura dele e gostaria de saber se ele era de fato o autor. Tratava-se da primeira ilustração feita para a matéria da Playboy.
“Boa noite. É um desenho meu. Não sei como foi parar numa feirinha. Acho estranho isso. Por favor me dê mais informações sobre como comprou e quanto pagou”, respondeu o artista à desconhecida. “Foi em uma feira de igreja, hoje em Brasília! Paguei R$ 5”, respondeu a interlocutora.
Laura ficou surpresa, e perguntou ao pai: “Nossa! É um original?”. “Sim. Ficou na redação [da revista] quando substituí pelo curativo na ferida Geraldo Vandré”, respondeu Elifas. A filha então questionou: “E quem te mandou essa mensagem?”. “Eu não conheço. Ela não se identificou”, disse o artista. “Mas como ela tem seu número?” “Alguém deu. Ela mandou mensagem para confirmar a autenticidade.”
Ao entrevistar Laura Andreato sobre homenagens ao seu pai pelos 80 anos, a filha do artista mencionou a história à reportagem, que partiu então para montar o quebra-cabeças. A mulher que procurara Elifas em 2021 não disse seu nome, mas o número dela ficou registrado.
Ela é Vânia Freitas, antiquária e professora de artes do ensino fundamental aposentada. “A gente morava em Brasília e a minha filha estava começando com uma loja de garimpo, de antiguidades. Até hoje vivemos garimpando, somos garimpeiras assumidas. Brasília é muito rica pro garimpo, né?”, contou, por telefone.
“A gente foi nesse bazar de igreja. Quando chegamos, já estava no final, só tinha tranqueira, não tinha mais nada. E essa obra estava escoradinha num armário. E aí eu vi. Eu conhecia [Elifas] já pelo nome, né? Eu falei [para minha filha], R$ 5, Fernanda. Gostei da obra e ela está aqui. Paguei R$ 5. Aí na época mandei uma mensagem para ele e ele me confirmou.”
“Não sei se eu achei [o número dele] no Instagram, ou no Google, não lembro. Ele respondeu com muita educação e disse que era dele sim”, diz Freitas.
Embora não conheça bem o trabalho de Elifas —não sabia sobre as célebres capas de álbuns da MPB, por exemplo—, ela relata que, quando viu a assinatura, sabia que era de um artista conhecido. “Sabia, porque eu sou professora de artes, né? Sou formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E a gente tem essa coisa, sabe o nome de artistas. Às vezes não sabe bem o nicho, mas quando olha, sabe.”
Laura, a filha de Elifas, disse não saber como a ilustração foi parar num bazar de igreja em Brasília. Mas lembra que o pai tinha costume de doar trabalhos, o que torna o rastreio uma tarefa árdua.
“Ele era um artista que pensava o produto final como sendo o que saía da gráfica. Então essa ideia que a gente vê nas artes plásticas do original como tendo um valor, para ele sempre foi uma coisa… aquilo não era ainda a obra, né? Ele pensava o trabalho para ser reproduzido, distribuído. E isso, para mim, é um dos aspectos interessantes da obra do meu pai”, diz Laura, que é artista visual e educadora.
Indagada se pretende manter ou vender a ilustração, a antiquária Vânia Freitas respondeu: “Se me aparecesse alguma oferta boa, até venderia”. Laura mostrou interesse em incorporar o trabalho ao acervo do pai –que, por uma parceria do Instituto Elifas Andreato com o Centro Universitário Belas Artes, será disponibilizado para os alunos da instituição e para consulta pública. Entrou em contato com Vânia, mas, até a conclusão desse texto, não há notícia de que tenha havido negócio.

