Quando dois dos concorrentes ao Oscar de melhor filme no ano passado, “O Brutalista” e “Emilia Pérez“, confirmaram o uso de inteligência artificial na pós-produção para ajustar o sotaque dos atores, ficou claro que a presença da tecnologia na indústria já estava em curso, ainda que cercada de polêmicas.
A urgência do tema levou à criação do Festival Mundial de Cinema com Inteligência Artificial, o Waiff, na sigla em inglês, que terá sua primeira edição no Brasil nesta semana.
O evento, criado na França, acontece em São Paulo nos dias 27 e 28, na Fundação Armando Álvares Penteado, a Faap. São exibidos 33 filmes em mostra competitiva, entre curtas e longas-metragens em live-action e animação.
A exigência era que todos os competidores usassem, pelo menos, três ferramentas de IA em sua concepção. Enquanto alguns foram totalmente criados com a tecnologia, outros utilizaram câmeras reais e, depois, aproveitaram a tecnologia na edição e na montagem.
Entre os convidados do evento está Reza Sixo Safai, fundador do Massive Studios AI, produtora californiana dedicada à criação audiovisual com inteligência artificial. No cenário nacional, a Globo encabeça dois dos principais painéis do evento, um deles sobre a aplicação de IA em aberturas de novelas. Afinal, a maior emissora do país já vem incorporando isso em seus folhetins, como na novela das sete “Coração Acelerado”, ou para dar expressões ao burro Policarpo, que até sorri em “Êta Mundo Melhor!”, na faixa das seis.
O canal brasileiro segue os passos dos grandes estúdios americanos, que vêm aperfeiçoando o uso da tecnologia na pós-produção de séries e filmes para ajustar efeitos especiais, desenhar sets e figurinos e até na mixagem de som.
“Desde a pesquisa até a pós-produção, a IA está participando de alguma forma”, diz Carlos Guedes, fundador do Waiff Brasil. Ele lembra que grandes diretores de Hollywood já estão abraçando a ferramenta, como é o caso de Darren Aronofsky, diretor de “Cisne Negro”, que está produzindo curtas-metragens com a DeepMind, do Google.
Outros, porém, têm se posicionado radicalmente contra o uso exagerado da IA, como é o caso de Guillermo del Toro. Em 2023, atores e roteiristas paralisaram o lançamento de séries e filmes por 118 dias no que se tornou a maior greve da história de Hollywood.
Na época, a maior preocupação era que estúdios escaneassem os rostos dos atores em uma única performance para reusá-los em outros filmes sem novas remunerações, ou que IAs fossem treinadas com estilos de escrita dos roteiristas sem permissão.
A greve acabou após um acordo firmado entre o sindicato dos atores de Hollywood, o SAG-AFTRA, e a aliança de produtores, a AMPTP, que representa empresas como a Netflix, Disney e Warner Bros. O documento estabeleceu proteções legais aos artistas contra o uso de suas imagens por inteligência artificial. Mas ainda existem questões mal resolvidas, que precisam ser encaradas, diz Guedes.
Uma delas passa pelo direito autoral. Afinal, as IAs precisam ser treinadas e, para isso, são alimentadas com trabalhos de artistas que nem sempre são remunerados propriamente. Por se tratar de uma tecnologia programada para identificar padrões, especialistas apontam também para uma possível uniformização da arte feita com IA.
Nas redes sociais, esse risco já é visível em milhares de vídeos em que cenários parecem artificiais, pessoas são excessivamente saturadas e brilhantes ou animais têm distorções físicas.
Por outro lado, a tecnologia vem sendo usada para auxiliar atividades humanas, poupando esforços com tarefas mecânicas e até acelerando a produção. “Há uma porta para que projetos que estão engavetados criem vida”, afirma Guedes. Para ele, a IA é mais uma ferramenta que depende da ação humana, e compara a introdução da tecnologia no cinema à chegada da computação gráfica, o CGI. “Há momentos nos quais é possível resolver com IA o que não seria possível resolver.”
Um dos filmes exibidos no Waiff Brasil, “Hallucination”, parece fazer referência a todo esse cenário conturbado. No curta animado, o herói dos quadrinhos que Joe K. desenha há décadas brota no plano real para lutar ao seu lado contra uma IA tirana, ligada a uma acusação de plágio contra o cartunista.

