O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) autorizou o Banco Digimais a conceder empréstimos consignados — com descontos em folha de pagamento — a policiais militares de São Paulo quando a instituição financeira já atravessava uma crise.
O acordo foi publicado em setembro de 2025 e abriu uma grande clientela em potencial ao banco, uma vez que, apenas em servidores ativos, a PM conta com mais de 80 mil agentes.
O banco pertence ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, que é ligada ao Republicanos, partido de Tarcísio. Na atual gestão, a igreja tem aprofundado suas conexões com a PM paulista.
Com desconto diretamente na folha de pagamento, o crédito consignado costuma ter juros menores que os de mercado e ajuda a garantir mais liquidez aos bancos em momentos de crise. O acordo da PM paulista com o Digimais tem validade até 2030.
Quando a autorização foi dada, o banco já enfrentava uma crise há muito tempo. Meses antes, a venda do Digimais para o BlueBank, do empresário Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, havia sido anunciada.
A negociação não avançou, sob justificativa de piora do cenário econômico e resistência do Banco Central (BC). No início de abril, o BTG Pactual divulgou ao mercado que assinou um acordo para a compra do Digimais.
Com o aumento da inadimplência na carteira de crédito durante a pandemia de Covid-19, o Digimais começou a passar por problemas. Relatórios de 2024 e 2025 apontaram alta inadimplência, o que corroeu o patrimônio e exigiu aportes recorrentes para evitar quebra técnica. O dinheiro veio do próprio Edir Macedo.
Em setembro de 2025, a instituição acumulava prejuízo de R$ 250 milhões – o rombo chegava a quase R$ 500 milhões em fevereiro deste ano.
Por meio de nota, a São Paulo Previdência (SPPREV) afirma que “atua exclusivamente como processadora dos descontos em folha de pagamento das consignações autorizadas por seus beneficiários, dentro dos limites legais, entre as mais de 150 instituições financeiras habilitadas para essa finalidade”.
“A SPPREV não participa da celebração dos contratos, tampouco interfere nas condições pactuadas”, afirma o órgão. A instituição diz, ainda, que o credenciamento das entidades ocorre mediante o cumprimento de requisitos legais e regulamentares previstos em lei e que “não cabe à SPPREV a análise de mérito sobre produtos ofertados ou decisões comerciais das instituições”.
Laços com a Universal
O acordo com o Digimais veio em momento de estreitamento das relações da PM paulista com a Igreja Universal. O Republicanos, partido do governador, tem como presidente o deputado federal Marcos Pereira, que é bispo licenciado da igreja, assim como o líder do governo Tarcísio na Assembleia Legislativa (Alesp), o pastor Gilmaci Santos.
Nos últimos anos, a PM tem usado os templos como salão de eventos para palestras e celebrações institucionais. A presença da Universal nos batalhões é rotineira, por meio do programa Universal nas Forças Policiais (UFP), que visa “prestar assistência espiritual, social e valorização humana aos integrantes das Forças de Segurança”.
Os comandantes da corporação costumam recorrer a lideranças da Universal para falar para seus efetivos sobre temas como saúde mental, autoajuda, e inteligência emocional. Em 10 de fevereiro do ano passado, 2,5 mil agentes foram ao templo do Brás (foto em destaque), na área central de São Paulo, para um evento de 12 horas.
Na ocasião, os agentes ouviram uma palestra do pastor Roni Negreiros sobre “Saúde Emocional com Fundamentos Bíblicos”. Ele afirmou aos policiais que a Universal tinha capelães em todas as unidades da PM de São Paulo, inclusive na Corregedoria e no presídio Romão Gomes, onde militares que cometeram delitos são presos.
Os capelães são uma espécie de guias espirituais da Igreja Universal, que presta assistência em hospitais, presídios e comunidades terapêuticas. Negreiros ressaltou que, embora, a Igreja estivesse à disposição dos policiais, a liberdade religiosa seria respeitada.
Procurada pelo Metrópoles, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou, por meio de nota, que a “Polícia Militar que é uma instituição composta por mais de 80 mil pessoas, com diferentes formações culturais e religiosas, e que respeita a liberdade de consciência e de crença de todo o seu efetivo”.
“As identificações e convicções pessoais dos policiais não representam os valores e os princípios da instituição e não interferem em sua missão primordial de proteger as pessoas por meio de policiamento ostensivo e preventivo. Em situações pontuais, a PM utiliza as instalações de igrejas ou outras instituições, como universidades e prefeituras, para reuniões de instrução a grandes grupos de policiais, de acordo com a necessidade de cada unidade”, diz a nota.
