A paulista Julia Reis, 27, precisou ouvir de outras pessoas aquilo que ainda não conseguia enxergar em si mesma —o próprio potencial. Hoje, a jornalista e criadora de conteúdo coleciona conquistas. É CEO da Brasa Mag, apresentadora da Podpah Records e coordenadora de cultura da Hypebeast, plataforma dedicada à cultura e ao estilo de vida.
“A gente não foi ensinada a se ver nesse lugar”, diz ela, que nasceu em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. “Quando se fala de poder, a mulher não consegue enxergá-lo antes do outro. Precisei que me falassem que eu tinha potencial para acreditar em mim”, completa.
Reis foi uma das entrevistadas da pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, feita pelo Estúdio Clarice, organização de inteligência e criação focada em investigar e fomentar o poder feminino por meio de pesquisas e produções audiovisuais.
Ela atribui seu sucesso ao apoio dos pais. “Quando nasci, minha mãe era assistente de atendimento ao cliente em uma multinacional, onde, 20 anos depois, se tornaria supervisora de suprimentos. Já meu pai é um artista que, para ganhar dinheiro, trabalhou por anos em gráfica”, conta.
Foi observando a relação da mãe com o dinheiro que ela aprendeu, desde cedo, a ser responsável com os gastos. Ao ingressar no curso de jornalismo da Universidade Mackenzie, tinha recursos apenas para pagar o primeiro semestre. Depois disso, teria que encontrar um jeito de se sustentar sozinha, disse a mãe, principal provedora da casa.
E foi o olhar do pai para a cultura que levou Julia para o hip-hop. “Lá em casa, a TV ficava ligada na MTV. Era música o dia todo”, lembra.
O primeiro trabalho, porém, estava longe da carreira que imaginava seguir. Julia conseguiu um estágio em um e-commerce de artigos para festas, onde fotografava produtos para o site —uma rotina distante do jornalismo que sonhava exercer. Ela saía de casa às 5h da manhã para trabalhar, seguia direto para a faculdade e só voltava perto da meia-noite.
Insatisfeita, pegou uma câmera com a tia e começou a gravar vídeos sobre política e compartilhar no Facebook. Lembra que os posts recebiam só dois comentários: da mãe e da tia. “Mas aquilo foi uma escola para mim. Aprendi a fazer roteiro, gravar e editar vídeo.”
Navegando na internet, ela se inscreveu —e foi escolhida— para trabalhar na Agência Mural de Jornalismo das Periferias, que publica reportagens sobre as periferias de São Paulo. Ali, viu uma luz.
“Comecei a entender que poderia falar de trap, de rap, das paradas que eu gostava.” No segundo ano da faculdade, iniciou um estágio na Vice, revista que era vista como uma publicação de contracultura quando fundada, nos anos 1990 —o grupo Vice declarou falência em 2023.
“Lá, tive os primeiros gestores que viram potencial em mim.” Então, Julia começou a se sentir empoderada.
O fato de ter dúvidas sobre sua capacidade não é algo que só aconteceu com ela. Segundo a pesquisa da Clarice, não confiar em si é uma das principais barreiras que as mulheres enfrentam.
Das 1.059 mulheres que participaram do levantamento quantitativo da Clarice, 27% delas afirmam duvidar da própria capacidade como principal causa de impotência. “Como mulher, você nunca vai acordar e falar: ‘Eu sou capaz’”, diz Julia. “A não ser que alguém te diga.”
A virada aconteceu ao dar entrada em seu apartamento, há dois anos. Desde os 16 anos, guardava dinheiro para tal, mesmo achando que seria impossível comprar um imóvel.
“Quando consegui, me entendi como uma mulher poderosa. A partir dali, passei a desejar as coisas como possibilidade, não mais como sonho”, lembra.
Para acreditar em seu potencial, mudou seu pensamento. “Entendi que o universo era uma mulher preta, não um homem branco. E que meu maior poder é entrar e sair de qualquer jardim, seja do Jaqueline (bairro na zona oeste de São Paulo) ou do Rosewood (hotel de luxo próximo à avenida Paulista).”
Julia mudou também sua forma de agir. Se na juventude se esforçou para ser aceita no futebol dos meninos, agora ela inventa oportunidades. Por exemplo, na Brasa Mag —sua plataforma de conteúdo sobre hip-hop—, cuja equipe é majoritariamente feminina, ela dá espaço para mulheres do hip-hop.
“Os homens têm um pacto amarrado na misoginia, e eu não vou pedir para sentar nessa mesa porque não quero. Eu crio a minha mesa, e trago a quebrada comigo.”
